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Tragédia de Brumadinho: As principais técnicas para lidar com ‘lixo da mineração’ que foram ignoradas pela Vale

O que a mineração trata como lixo já foi transformado em tijolo, pavimento, telha, ladrilho hidráulico, madeira plástica, concreto asfáltico, pigmento, sais para saneamento básico e até mesmo em mais minério.

Da lama e da areia que sobram do beneficiamento do minério, normalmente ricas em quartzo, óxido de ferro e argila, foram construídas casas protótipos em Ouro Preto (MG) e em Pedro Leopoldo (MG), além de um espaço de convivência num shopping em Belo Horizonte e do calçamento de um bairro em Guarapari (ES).

Em parceria com universidades, mineradoras e o poder público financiaram projetos que provaram ser bem-sucedidos como solução não só para evitar o armazenamento de rejeitos em barragens por meio do beneficiamento a seco do minério como também para reciclar resíduos, transformando-os, principalmente, em insumos para a construção civil.

Para Alberto Sayão, professor de engenharia civil da PUC-Rio, a principal alternativa a ser pensada é reduzir a quantidade de água usada no beneficiamento do minério.

O professor lembra que, além disso, mineradoras têm optado pelo tipo de barragem chamado “a montante”, considerada a mais barata, a que ocupa menos espaço e, também, a menos segura – esse tipo de construção foi proibido em Minas depois que a Mina do Feijão, da Vale, rompeu em Brumadinho em janeiro, deixando mais de duas centenas de mortos e desaparecidos.

A Justiça em Minas proibiu novos licenciamentos, e o governo mineiro deu três anos para o fechamento de todas as 50 barragens a montante no Estado – dessas, 27 ainda estão em operação.

Não se sabe, contudo, se as empresas vão investir em métodos alternativos, ou se vão continuar usando outros tipos de barragens.

No mercado, já há pelo menos duas metodologias de deposição a seco de rejeitos. Uma delas propõe a filtragem e a compactação do resíduo (em forma de pilha ou disposto em locais de descarte de materiais). A outra usa uma tecnologia chamada de pasta mineral, que promove o adensamento de material muito fino.

A Vallourec, empresa que opera em Minas e mantém um centro de pesquisas instalado no Parque Tecnológico da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), já usa um equipamento chamado de filtro prensa, que dispensa a construção de barragens.

Depois de cinco anos de pesquisa para eliminar os riscos de instabilidade inerentes às barragens, a Mina Pau Branco, em Minas, passou a operar em novembro de 2015 com o filtro prensa que retira água dos rejeitos e permite o empilhamento dos resíduos drenados. No entanto, o beneficiamento a seco ainda é exceção no mercado da mineração, em especial em Minas Gerais.

As barragens são responsáveis pela destinação de 94,6% dos rejeitos da mineração de mais de 300 empresas em Minas Gerais que, em 2017, contribuíram para a produção de 562 milhões de toneladas de descartes – metade desse montante é de rejeitos, como os que varreram Brumadinho em janeiro e recentemente forçaram a retirada de famílias que vivem perto de barragens em Itatiaiuçu e em Barão de Cocais, em Minas, diante do risco de rompimento.

Dos rejeitos da mineração em Minas, além das barragens, se usam numa proporção bem menor os métodos de pilha (2,87%), bota fora (0,72%) e depósito de estéril (0,66%). A Feam não especifica o método responsável pelo 1,72% restante.

Os números indicam ainda que empresas têm ignorado várias técnicas da mineração que permitem não apenas a eliminação de barragens no processo de beneficiamento do minério de ferro como também o reaproveitamento de rejeitos, em especial na construção civil.

Se depender dos projetos elaborados nas universidades em Minas Gerais, muitos deles em parceria com as próprias mineradoras, os resíduos do beneficiamento a seco e mesmo os armazenados em barragens podem ser reutilizados, principalmente na construção civil.

Apesar de haver um certo estigma entre empresas e consumidores em relação a material produzido a partir dos resíduos da mineração, pesquisadores garantem que o rejeito não é tóxico, corrosivo nem inflamável.

A Universidade Federal de Lavras (Ufla) usou resíduos do Fundão, depois que a barragem da Samarco rompeu em Mariana em 2015, para desenvolver uma série de produtos como piso, tijolo, blocos e telhas. O professor Rafael Farinassi Mendes, responsável pela pesquisa, diz que o material que desenvolveu tem um diferencial: o uso de fibras vegetais para potencializar a durabilidade e o conforto térmico. O professor diz que o laboratório da Ufla ficou pequeno demais, já que sua equipe conseguiu aplicar a tecnologia em escala industrial.

O projeto Reciclos, da Ufop, ganhou prêmio por propor uma vila sustentável com casas populares construídas com rejeitos numa área da universidade. O concreto, a argamassa, os blocos para alvenaria e para pavimentação foram produzidos a partir de rejeitos retirados de barragens de mineradoras. As casas são protótipos que usam ainda energia solar, cobertura verde e tecnologia para reutilizar a água.

Desde 2017, quem passa pelo Boulevard Shopping pode caminhar, sentar e observar de perto o resultado do processo que transformou lama e areia da Samarco em blocos intertravados, usados como piso, e em madeiras plásticas, usadas na fabricação de decks, mesas e cadeiras do espaço ao ar livre.

Mas, segundo pesquisadores, para esses projetos deixarem de ser protótipos, saírem dos laboratórios ou experiências isoladas e passarem a ser produzidos em escala industrial, ainda é preciso convencer as mineradoras a investirem em métodos a seco e a cederem matéria prima, além de ser necessário incentivo governamental para concorrer no competitivo mercado da construção civil.

A Vale informou que usa tecnologia de processamento a seco para os minérios de alto teor, tanto em Minas Gerais, quanto no Pará, desde 2013. Informou ainda que também já reaproveita material armazenado em barragens “fazendo reprocessamento e gerando produto”.

Em Minas, segundo a empresa, “o processamento a seco foi ampliado de 20%, em 2016, para 32% em 2018”. Um exemplo citado pela Vale é a planta da Instalação de Tratamento de Minério da Mina do Pico, em Itabirito, que foi modificada para 100% de produção a seco.

O plano da Vale, de acordo com a assessoria de imprensa da empresa, é aumentar a parcela de produção a seco para 70% em 2023, e, consequentemente, reduzir a utilização de barragens nas operações.

A mineradora diz ainda que, além do processamento a seco, a empresa vem adotando diversas melhorias para ampliar a recuperação metálica nas usinas, reduzindo a quantidade de rejeitos. “Em uma iniciativa prevista na mudança da prática operacional, a Vale está estudando separar o rejeito fino (lama) do rejeito grosso (areia). Atualmente, ambos são misturados em uma única barragem. A Vale está estudando a disposição em pilhas para o rejeito grosso, reduzindo significativamente a necessidade de novas estruturas”, diz.

Fonte: Site Terra.

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